Apagar, desfazer, esquecer
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Foto de Davide Mandolini Constou-me que o Gmail tem agora uma
funcionalidade que permite desfazer emails nos primeiros segundos após o
envio. Preciso de ...
26/03/2010
O que fazia afinal...
Sem conta bancária nem uma única declaração feita ao IRS ou poupança ou seguros em dia. NAda. Uma espécie de cidadão inexistente, bilhete de identidade caducado, carta de condução sim, a de ligeiros mas a de pesados era falsa, ainda que nunca tenha conduzido um camião na vida, o pretexto de a tirar foi apenas uma maneira de extorquir uns dinheiros à minha avó que lhe estendia o que podia e não podia na esperança de o ver assentar. Durante os quase 50 anos que viveu nunca uma profissão honrada teve em mãos, nunca um recibo de ordenado, nunca nada. O meu pai foi ladrão, foi proxeneta, segurança em casas de jogo e nos picos da intelectualidade associou-se com um fulano e entraram no mundo das faturas falsas, que nos inícios dos anos 80 ainda eram um oásis para ganhar dinheiro. Em tempos de fartura vi dinheiro, notas a serem despejadas em cima da cama. Em tempos de crise conheci fome e pancada que era a maneira que a falta de humildade que tinha arranjava para que eu acabrunhasse mais e não lhe questionasse porque me exigia resultados extraordinários na escola sem livros e de sapatos rotos. O mesmo homem do "olha o que eu digo e não o que faço" que explanava gordas teorias acerca da moral e do carácter, mas que porta para dentro humilhava a mulher e a filha e as castigava pela pessoa que ele sabia que não era. O homem que traficava droga quando eu era adolescente que mais vezes me chamou estúpida e inútil que pelo meu nome próprio ou por filha. O homem que me dizia à hora de almoço quando eu chegava da escola que começasse a arranjar um motivo porque estava com vontade de aquecer as mãos. O mesmo que me dizia que as lágrimas temperavam a comida e que silvava "shiuuuuuus" profundos e aterradores quando eu chorava alto, que o incomodava. Tenho estado a chamar-lhe homem... nunca o foi. Um animal. Era o que ele era.
22/03/2010
Eles querem é seleccionar as crianças
Uma das minhas maiores vergonhas, entre outras, foi nunca ter conhecido uma profissão ao meu pai. Quando, na escola, tínhamos de preencher o boletim de informação pessoal eu nunca sabia o que escrever sobre o meu. Tinha uns oito anos quando lhe perguntei qual a sua profissão já que as ausências nessa altura davam-se às vezes durante dias mas sem que se falasse sobre o que fazia ou eu o percebesse. Fui almoçar a casa, tinha deixado o espaço em branco com a permissão da profesora e dar-lhe-ia a resposta no dia seguinte,
-Pai, o que é o teu trabalho?
-O meu trabalho? Porque é que queres saber?
-Para dizer na escola temos de preencher umas fichas.
-Eles querem é seleccionar quem são os meninos filhinhos dos papás para os tratarem melhor que aos outros. Gente de merda, vais escrever que sou empresário em nome individual.
Apontei no meu caderninho as pomposas palavras acerca do que o meu pai fazia, empresário em nome individual era algo que eu não entendia muito bem o que significava mas que já dava para competir nos intervalos com os meus colegas cujos pais eram professores, bancários ou empregados de mesa, eu já não ignorava as conversas sobre o tema nem ficava simplesmente a ouvir e a imaginar como seriam as vidas deles. Mas ainda longe estava eu de saber de onde vinham os verdadeiros rendimentos do meu pai.
-Pai, o que é o teu trabalho?
-O meu trabalho? Porque é que queres saber?
-Para dizer na escola temos de preencher umas fichas.
-Eles querem é seleccionar quem são os meninos filhinhos dos papás para os tratarem melhor que aos outros. Gente de merda, vais escrever que sou empresário em nome individual.
Apontei no meu caderninho as pomposas palavras acerca do que o meu pai fazia, empresário em nome individual era algo que eu não entendia muito bem o que significava mas que já dava para competir nos intervalos com os meus colegas cujos pais eram professores, bancários ou empregados de mesa, eu já não ignorava as conversas sobre o tema nem ficava simplesmente a ouvir e a imaginar como seriam as vidas deles. Mas ainda longe estava eu de saber de onde vinham os verdadeiros rendimentos do meu pai.
11/03/2010
As minhas dúvidas acerca daquilo que era violência doméstica é algo que ainda hoje em dia me arrepia. Ou pelo menos demonstrativo da minha ingenuidade face ao que tinha como prato do dia. Eu achava, ainda miúda, que só era violência doméstica quando havia morte. Antes disso seriam apenas discussões. Também tinha uma ideia firme e convicta de que a culpa seria sempre dela porque provocava o ele e o levava a extremos. E os filhos, que os filhos eram insolentes ou a precisarem de ser educados, por maneira a que como propriedade dos pais que eram (e só recentemente em terapia após repetir "os filhos não são posse dos pais" é que me libertei desta ideia) mereciam cada carga de pancada que levavam em nome de um futuro brilhante, como se as oportunidades da vida e as caras-metade aparecessem como bónus dos grandes apertões que se levavam entre corpo e mãos, paredes, chinelos, cintos... Assim, de cada vez que o meu pai, mais ele, me ofendia e subjugava, era normal. De todas as vezes que me agrediu, continuou a ser normal. Das vezes em que me acordava a meio da noite para me humilhar, também era normal. Eu detestava as minhas colegas a quem os pais não faziam isso, achava-as inferiores por terem uma vida fácil e só hoje passados anos a separarem-me entre a sua morte e a última vez que tive de olhar para aquela boca odiosa de dentes tortos e podres me dou conta de que elas não eram inferiores nem superiores nem nada. Tinham simplesmente pais diferentes.
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