22/03/2010

Eles querem é seleccionar as crianças

Uma das minhas maiores vergonhas, entre outras, foi nunca ter conhecido uma profissão ao meu pai. Quando, na escola, tínhamos de preencher o boletim de informação pessoal eu nunca sabia o que escrever sobre o meu. Tinha uns oito anos quando lhe perguntei qual a sua profissão já que as ausências nessa altura davam-se às vezes durante dias mas sem que se falasse sobre o que fazia ou eu o percebesse. Fui almoçar a casa, tinha deixado o espaço em branco com a permissão da profesora e dar-lhe-ia a resposta no dia seguinte,
-Pai, o que é o teu trabalho?
-O meu trabalho? Porque é que queres saber?
-Para dizer na escola temos de preencher umas fichas.
-Eles querem é seleccionar quem são os meninos filhinhos dos papás para os tratarem melhor que aos outros. Gente de merda, vais escrever que sou empresário em nome individual.

Apontei no meu caderninho as pomposas palavras acerca do que o meu pai fazia, empresário em nome individual era algo que eu não entendia muito bem o que significava mas que já dava para competir nos intervalos com os meus colegas cujos pais eram professores, bancários ou empregados de mesa, eu já não ignorava as conversas sobre o tema nem ficava simplesmente a ouvir e a imaginar como seriam as vidas deles. Mas ainda longe estava eu de saber de onde vinham os verdadeiros rendimentos do meu pai.