Apagar, desfazer, esquecer
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Foto de Davide Mandolini Constou-me que o Gmail tem agora uma
funcionalidade que permite desfazer emails nos primeiros segundos após o
envio. Preciso de ...
11/03/2010
As minhas dúvidas acerca daquilo que era violência doméstica é algo que ainda hoje em dia me arrepia. Ou pelo menos demonstrativo da minha ingenuidade face ao que tinha como prato do dia. Eu achava, ainda miúda, que só era violência doméstica quando havia morte. Antes disso seriam apenas discussões. Também tinha uma ideia firme e convicta de que a culpa seria sempre dela porque provocava o ele e o levava a extremos. E os filhos, que os filhos eram insolentes ou a precisarem de ser educados, por maneira a que como propriedade dos pais que eram (e só recentemente em terapia após repetir "os filhos não são posse dos pais" é que me libertei desta ideia) mereciam cada carga de pancada que levavam em nome de um futuro brilhante, como se as oportunidades da vida e as caras-metade aparecessem como bónus dos grandes apertões que se levavam entre corpo e mãos, paredes, chinelos, cintos... Assim, de cada vez que o meu pai, mais ele, me ofendia e subjugava, era normal. De todas as vezes que me agrediu, continuou a ser normal. Das vezes em que me acordava a meio da noite para me humilhar, também era normal. Eu detestava as minhas colegas a quem os pais não faziam isso, achava-as inferiores por terem uma vida fácil e só hoje passados anos a separarem-me entre a sua morte e a última vez que tive de olhar para aquela boca odiosa de dentes tortos e podres me dou conta de que elas não eram inferiores nem superiores nem nada. Tinham simplesmente pais diferentes.
