26/03/2010

O que fazia afinal...

Sem conta bancária nem uma única declaração feita ao IRS ou poupança ou seguros em dia. NAda. Uma espécie de cidadão inexistente, bilhete de identidade caducado, carta de condução sim, a de ligeiros mas a de pesados era falsa, ainda que nunca tenha conduzido um camião na vida, o pretexto de a tirar foi apenas uma maneira de extorquir uns dinheiros à minha avó que lhe estendia o que podia e não podia na esperança de o ver assentar. Durante os quase 50 anos que viveu nunca uma profissão honrada teve em mãos, nunca um recibo de ordenado, nunca nada. O meu pai foi ladrão, foi proxeneta, segurança em casas de jogo e nos picos da intelectualidade associou-se com um fulano e entraram no mundo das faturas falsas, que nos inícios dos anos 80 ainda eram um oásis para ganhar dinheiro. Em tempos de fartura vi dinheiro, notas a serem despejadas em cima da cama. Em tempos de crise conheci fome e pancada que era a maneira que a falta de humildade que tinha arranjava para que eu acabrunhasse mais e não lhe questionasse porque me exigia resultados extraordinários na escola sem livros e de sapatos rotos. O mesmo homem do "olha o que eu digo e não o que faço" que explanava gordas teorias acerca da moral e do carácter, mas que porta para dentro humilhava a mulher e a filha e as castigava pela pessoa que ele sabia que não era. O homem que traficava droga quando eu era adolescente que mais vezes me chamou estúpida e inútil que pelo meu nome próprio ou por filha. O homem que me dizia à hora de almoço quando eu chegava da escola que começasse a arranjar um motivo porque estava com vontade de aquecer as mãos. O mesmo que me dizia que as lágrimas temperavam a comida e que silvava "shiuuuuuus" profundos e aterradores quando eu chorava alto, que o incomodava. Tenho estado a chamar-lhe homem... nunca o foi. Um animal. Era o que ele era.